sábado, 1 de agosto de 2026

Eis os novos tempos: a "Sociedade do voluntarismo" e a "Sociedade do escândalo" aos moldes da modernidade





Começo a escrever nesse sábado de manhã, e não quero usar a IA (Inteligência Artificial) para corrigir supostos erros ortográficos, (claro que vou conferir possíveis erros e retificar), pois o erro pode ser inevitável (desde que se busque de forma extremamente eficiente não errar), e com ele (o erro) aprendermos a sermos melhores (como diria Karl Popper). 


   Vivemos a “Sociedade do Escândalo”, e como certa vez me disse, meu estimado Professor do Mestrado, Dr. Alexandre Bruno, vivemos na “Sociedade do voluntarismo”. Como a “Sociedade do Escândalo” se comunica com a “Sociedade do voluntarismo”? Para explicar essa conexão, é preciso entender a dinâmica das redes sociais que se alavancaram no início do Século XXI, e ganharam à proporção que se conhece atualmente a partir de 2010. 

    No Brasil, a partir de 2010, com a massificação dos “iPhones”, o acesso a internet se tornou uma alternativa viável a milhões de pessoas, chegando as casas daqueles que desconheciam esse mundo. O “Orkut” (criado em 2004) estava “morrendo”, enquanto o “Youtube” (também criado na mesma época do Orkut), ainda estava ascendendo. E por que essa diferença? O Orkut era uma rede social de comunidades, mas ainda num nicho muito fechado, pois o acesso à internet ainda não havia se massificado, enquanto o Youtube era um espaço de acesso conhecido por todos como “upload” de vídeos caseiros. 

    Tudo começa a mudar, quando o “Facebook” (também criado na mesma época das duas redes anteriores), conseguiu alavancar num momento de massificação dos celulares. Mas e os vídeos curtos e o algoritmo atual já existiam? Sim, mas não com o teor comercial da atualidade. 

    O Facebook permitia a comunicação entre os diversos grupos, as postagens de todos os “amigos e amigas” virtuais eram visualizadas, havia um canal de diálogo (diferente da dinâmica atual da citada rede, quase “falecida”). As pessoas poderiam postar suas opiniões, postar suas fotos, vídeos, criar mini bloggers (“fanpages”). É nesse momento que se cria a “Sociedade do voluntarismo” aos moldes tupiniquins da modernidade. 

    O voluntarismo é uma teoria política e filosófica que defende que todas as relações humanas devem ocorrer de forma totalmente voluntária, sem a coerção ou força do Estado. Com o mundo globalizado e o crescimento das “Big techs”, o voluntarismo alcançou outros patamares, entre eles frases do tipo, “falo o que quero e acabou”, “estou nem aí, falo o que penso e acabou”, e isso foi amplamente utilizado no Facebook. 

    Pessoas começaram a usar a rede social para criticar pessoas (sem fundamento e sem escrupúlos), para “escandalizar” temas, para expor traições, para um campo de batalha político, e como dizem, a conversa do bar acabava de chegar nas redes, com direito a réplica e tréplica e assim por diante. 

    Mas vejam bem, sempre defendi a liberdade de pensamento, e abertura de diálogo que as redes sociais trouxeram, mas sempre defendi que tudo isso fosse realizado com responsabilidade, realidade essa não encarada pelas postagens que se percebia ao longo do tempo. 

    Assim, se formou a “Sociedade voluntária” a níveis “tupiniquins” da modernidade, em que todos se acharam na liberdade de falar (opinar) e criticar tudo e a todos, sem pensar nas consequências, e mais, pessoas que em nada entendia sobre um assunto, opinando como se fossem especialistas, sem nunca terem lido sequer um artigo sobre o tema. 

    Sou um defensor da “filosofia do conhecimento”, ou seja, falar com propriedade sobre determinado assunto exige conhecimento técnico sobre o mesmo, exige estudo, exige aperfeiçoamento, o que não impede de haver diálogo entre aqueles que buscam o conhecimento. Não se busca o monopólio do conhecimento, mas a “humildade” de entender que não temos a propriedade sobre determinado tema, assim não podemos falar com a propriedade do especialista, mas que podemos buscar o diálogo, e consequente estudar sobre o tema. 

    Mas a “Sociedade do voluntarismo” (com raras exceções) não quer esse “diálogo”, não busca o aprofundamento sobre temas, quer apenas “opinar” e desmerecer quem lhe contraria, inclusive os estudiosos sobre os assuntos opinados. 

    Assim, o Facebook abriu a porteira desse modelo de sociedade, mas algo pior viria. Lembram do instagram? Era uma rede social apenas de fotografias, certo?! O Facebook já o havia comprado em 2012, por cerca de US$ 1 bilhão de dólares. Nesse mesmo período surgiu o WhatsApp (também comprado pelo Facebook), rede social que permitiu a comunicação rápida (com aplicativo no celular) via mensagens, vídeos, áudios e grupos.

    No início, a adesão aos grupos do “zap” (nome conhecido pelos seus usuários, porque até esse vosso cronista tem dificuldade de escrever e falar esse nome “inglesado”- lembrei do Ariano Suassuna) era defendida como a busca da aproximação dos amigos e familiares sem o contato direto (aproximar as distâncias), mas na prática se tornou uma “zona”(como todo respeito), e em certos casos, um espaço (bolhas sociais) de propagação de práticas fascistas e racistas, com a exposição de vídeos e áudios com teor criminoso, e com a suposta "garantia" da distância dos "olhos" do Estado.
 
    Enquanto isso, uma rede social de vídeos curtos ganhava espaços no mundo. Era o “Kwai”, rede social chinesa criada em 2012 e que ganhou o mundo (curiosamente, proibida atualmente na própria China). O Kwai tinha algo diferente das demais, ele trabalhava com vídeos de 10 segundos, mais tardar 15 segundos, com cortes que faziam certos vídeos viralizar. Logo após, em 2016, surge o “Tiktok”, com as mesmas características do primeiro. Foi nesse momento que a porteira abriu de vez as portas. 

    Logo, todas as redes (Facebook, Instagram, Youtube) se adaptam a nova realidade dos vídeos curtos, uma das formas mais viciantes e escandalosas de regressão intelectual da sociedade. 

    Entretanto, há uma data que muda a rota das “Big techs” estrategicamente, e esse ano foi em 2016. Nesse mesmo ano, aconteceram as eleições para Presidente dos EUA, a qual Donalt Trump se saiu vitorioso, e uma das estratégias do seu grupo, foi usar informações “privilegiadas” (repassadas pelos donos das Big techs) das redes socias, entre elas, do Facebook, para entender os gostos e opiniões de cada usuário, além de encaminhamentos “combinados e preferenciais” do então candidato para usuários específicos. Foi nesse momento, que o “algoritmo” ganhou força e que as “Big techs” começaram a moldar a década que se vive atualmente. 

  Perceberam que vídeos para “viralizar” atualmente, normalmente são vídeos curtos, de brigas/discussões, de exposição de traições, de violência, de ódio, opiniões fascistas, de vídeos sexualizados ou de conteúdos frágeis (intelectualmente)? Isso está interligado também com a chegada da Extrema Direita no poder em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, de 2013 para cá. Assim, esses são os conteúdos que engajam, é a “Sociedade do Escândalo” garantindo a sua proporção e a sua fama. E isso gera dinheiro - para as "Big techs" e influência nas redes. 
 
    Assim, a “sociedade do escândalo” nos moldes “tupiniquins” da modernidade (das redes sociais) foi "fisgada" totalmente a "nova ordem", a qual quanto mais escândalos gravados, discursos de ódio, melhor para engajamento, pois esse último (o engajamento) virou o objetivo de todos, pois caíram (e caem) no “conto da sereia” do enriquecimento rápido e fácil de ser “influenciador”. 

    E o mais impactante é a “sociedade do voluntarismo” e a “sociedade do escândalo” (nos moldes da modernidade) acharem que controlam tudo, mas que na verdade, são meras peças de controle do “capitalismo” mundial. 

    A “Sociedade do voluntarismo” é irmã da “Sociedade do Escândalo”, e ambas não têm classe social específica, nem raça e nem etnia, são resultados da histórica ineficiência estatal (500 anos de omissão estatal) na evolução educacional desse país, na evolução intelectual, no abandono social nas camadas mais carentes, mas também numa histórica elite econômica entreguistas e individualista, que “tomou” o Estado para si. 

    E assim, chegamos nos dias atuais....e se pergunta, quem assiste um vídeo de um minuto (pasmem, um minuto)?! Quase ninguém.....Quem ler um livro todo?! Poucos.....Chegamos infelizmente na “Sociedade do atraso intelectual”?! 

    Sempre fui (e sou) um esperançoso e acreditar em mudanças melhores sempre será meu objetivo. Nosso papel é questionar (e aprender), acreditar em dias melhores, e buscar uma sociedade melhor. É por isso que escrevo essa crônica (espero que façam a leitura até o fim), ela não tem o objetivo de tirar a esperança de ninguém, mas sim, trazer uma análise da realidade, objetivando mudanças estruturais (para o bem) na nossa sociedade. 

Termino e agradeço pela leitura! Bom fim de semana!







Joaquim Marques Cavalcante Filho 
É filho da Comunidade Cunhassu (Zona Rural de Coreaú/CE, ex-“velha” Palma), filho do casal de agricultores Joaquim Marques Cavalcante e Maria Machado de Aguiar, pai da Maria Eduarda e do Moisés, casado com a Hellen Albuquerque e irmão da Natália e da Thaís. É Advogado, Contador, Pós-Graduado em Direito Previdenciário e em Planejamento Tributário e Mestrando em Direito pela Universidade Chritus. Foi membro da Comissão de Direito Tributário da Secional da OABCE (2023/2025) e membro da Comissão de Direitos Humanos da Subsecção da OAB de Sobral (2022/2023).

Eis os novos tempos: a "Sociedade do voluntarismo" e a "Sociedade do escândalo" aos moldes da modernidade

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