Pouca gente sabe, mas a então Vila da Palma — atual Município de Coreaú — viveu, em 1937, um episódio emblemático da história política brasileira.
Antes de iniciar o contexto histórico desse fato, é importante entender o significado do integralismo brasileiro. A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi criada em 1932 e se inspirou diretamente nos regimes fascistas europeus, especialmente no fascismo italiano de Benito Mussolini (fascismo italiano esse, que depois, influenciou o nazismo alemão). Adaptado ao contexto brasileiro, o integralismo incorporou elementos centrais do fascismo: culto à autoridade, rejeição à democracia liberal, forte anticomunismo, nacionalismo exaltado, mobilização de massas uniformizadas (camisas verdes) e liderança centralizada.
No Brasil, o movimento acrescentou um componente próprio: o uso do discurso religioso e moralista, apresentando-se como defensor da família, da fé cristã e da “ordem social”. Esse falso moralismo foi uma das principais portas de entrada do integralismo em cidades do interior.
Por isso, historicamente, o integralismo é compreendido como a expressão brasileira do fascismo, ainda que com características locais.
Voltando a Palma, em 15 de agosto de 1937, militantes da Ação Integralista Brasileira (AIB), conhecidos como “camisas verdes”, realizaram um ato público na cidade. Não foi uma visita casual. Tratou-se de uma ação organizada, inserida na estratégia nacional do movimento de interiorizar sua presença e fundar núcleos municipais.
O roteiro seguido em Palma foi típico do integralismo no interior do país.
Primeiro, houve missa na igreja matriz, numa tentativa clara de associar o movimento à fé católica e à ideia de regeneração moral. Em seguida, realizou-se uma sessão política no Paço da Prefeitura (possivelmente no atual prédio onde está ficado o Banco do Brasil de Coreaú, prédio esse considerado o primeiro Paço Municipal da "velha" Palma) , com discursos exaltando Plínio Salgado e reforçando o caráter anticomunista da organização, com fala inclusive do então paróco da época, Padre Ivan Carvalho, a qual afirmou que sobre o "integralismo, não encontrava nenhuma incompatibilidade com a Doutrina da Igreja".
Nesse mesmo ato foi oficialmente criado o núcleo integralista de Palma.
O ponto central é que o movimento não chegou à margem das instituições: foi nomeado como chefe municipal da AIB o então vereador Luiz Carvalho Sobrinho e, além disso, o evento resultou na adesão imediata de 26 novos membros da própria comunidade local.
Ou seja, não houve apenas uma liderança indicada. Houve recrutamento organizado, com vinte e seis pessoas formalmente incorporadas ao movimento naquele mesmo dia. Encerrando a programação, ocorreu o desfile dos integralistas pelas ruas da cidade, uniformizados e acompanhados por banda. Era uma performance política cuidadosamente calculada: ocupar o espaço público, demonstrar disciplina e produzir impacto simbólico.
🧭 Democracia recém-nascida, autoritarismo em gestação
Esse episódio ganha densidade quando se observa o contexto.
Entre 1930 e 1935, Palma perdeu sua autonomia municipal, sendo rebaixada à condição de distrito de Massapê, no ambiente das interventorias instauradas após a Revolução de 1930. Nesse período, não havia eleições locais: as autoridades eram indicadas.
Somente em 1936, Palma recupera o status de Município e realiza sua primeira eleição municipal efetivamente democrática, já sob o novo Código Eleitoral, com voto secreto e supervisão da Justiça Eleitoral. Nesse pleito, Antônio Teles Dourado foi eleito prefeito.
Ou seja: a democracia local tinha pouco mais de um ano de existência quando o integralismo se organizou oficialmente na cidade.
A sequência histórica é reveladora:
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1936 – retomada do município e primeira eleição democrática
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agosto de 1937 – chegada organizada do integralismo à Palma (com nomeação de chefe e adesão de 26 membros)
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novembro de 1937 – golpe do Estado Novo
Em menos de dois anos, Palma passou de distrito a município, de eleição popular a ambiente autoritário nacional.
🟥 Novembro de 1937: o Estado Novo e o fim da experiência democrática
Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas fecha o Congresso Nacional, dissolve assembleias e câmaras municipais, suspende eleições e instaura o Estado Novo.
A partir desse momento, prefeitos deixam de ser eleitos e passam a ser nomeados dentro do sistema interventorial.
Em Palma/Coreaú, Antônio Teles Dourado, eleito em 1936, permanece à frente do município por nomeação, exercendo a chefia do Executivo local até 1945.
Sua trajetória atravessa dois regimes distintos: um breve momento democrático e um longo período ditatorial.
Não se trata de juízo pessoal, mas de constatação institucional: o cargo deixa de ser expressão do voto popular e passa a integrar a engrenagem centralizadora do regime.
🧭 Integralismo: adesão individual, dissolução forçada e reaparecimento político
Embora o integralismo tenha ajudado a criar o clima político que antecedeu o golpe, o Estado Novo não tolerou organizações paralelas de massa.
Pouco depois de consolidado o regime, a AIB foi colocada na ilegalidade e seus núcleos dissolvidos.
Em Palma, isso significou o encerramento formal do núcleo criado em agosto de 1937.
Essas forças só voltariam a se expressar politicamente após 1945, quando antigos quadros integralistas se reorganizam principalmente no Partido de Representação Popular (PRP), enquanto outros remanescentes se dispersam por legendas como o Partido Social Progressista (PSP).
Não houve ruptura ideológica profunda — houve reacomodação institucional. As ideias autoritárias não desapareceram. Apenas mudaram de sigla, de linguagem e de estratégia.
🧩 Luiz Carvalho Sobrinho e as lideranças locais
O chefe municipal do núcleo integralista em Palma, Luiz Carvalho Sobrinho, exercia à época o mandato de vereador. Era casado com Rita Cristino de Carvalho, filha de Vicente Cristino de Menezes (que viria a assumir a Prefeitura em 1950), e tinha origem nos Carvalho do Cunhassu, família tradicional da região.
À luz dos registros disponíveis, pode-se afirmar objetivamente que Luiz Carvalho Sobrinho aderiu ao integralismo em 1937, assumindo a chefia local do movimento, ao mesmo tempo em que 26 moradores de Palma foram incorporados como novos membros da AIB.
Trata-se de dado histórico factual. Isso não autoriza generalizações familiares nem comunitárias. As adesões foram individuais e devem ser compreendidas dentro do clima político dos anos 1930.
O integralismo apresentava-se como defensor da moral cristã, da ordem social e da unidade nacional. Utilizava um discurso fortemente religioso, patriótico e anticomunista — um falso moralismo, que prometia “regenerar” o país em meio à instabilidade institucional.
Também não podemos alegar categorigamente que o Sr. Luiz Carvalho Sobrinho era um nítido fascista. Como dito, o integralismo utilizava de discurso falso moralista e religioso, e anti-sistema, mas que na verdade era apenas a outra fase do coronelismo arcaíco que dissolava o sertão sofrido. Por isso, atraia muitas pessoas, numa época em que o discurso anticomunista estava repleto de mentiras e medos aplicados. Também era notório que se vivia numa sociedade extretamente conservadora e instável politicamente, o que permitia a adesão ao movimento integralista.
Em muitos municípios do interior brasileiro, esse tipo de narrativa encontrou eco mais por conjuntura do que por convicção ideológica profunda. O episódio de Palma mostra como projetos autoritários conseguem se articular momentaneamente com lideranças locais quando a democracia ainda é frágil.
🧩 Palma além de si mesma: circulação de quadros locais
É relevante registrar que Palma/Coreaú também projetava seus filhos para fora do município. Um exemplo é Craveiro Frota, homem da Palma, que exerceu a função de Inspetor da Província da Amazônia e que era militante atuante do Integralismo.
Esse dado ajuda a compreender que Palma não estava isolada do cenário nacional. Havia circulação de pessoas, vínculos administrativos e inserção em estruturas estatais mais amplas — justamente no período em que o país caminhava para o fechamento do regime democrático.
A atuação do Sr. Craveiro Frota junto ao integralismo remonta a Província do Amazonas, a qual influenciou sua busca em montar um núcleo em sua terra natal, a Palma. Assim, o integralismo (fascismo) chegava as terras palmenses, numa parceria entre políticos e estruturas da Igreja Católica.
🎯 Uma reflexão necessária
O fascismo não costuma chegar anunciando violência explícita.
Ele geralmente se apresenta como solução moral, como promessa de ordem, como defesa da fé, da família e da pátria. Entra pelas portas do moralismo simplificador, do patriotismo retórico e da promessa de respostas fáceis para problemas complexos.
Na Palma, em 1937, chegou com:
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estrutura organizada;
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liderança assumida por vereador em exercício;
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adesão imediata de 26 moradores;
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ocupação simbólica do espaço público por meio de rituais e desfiles.
Esse episódio vai além de um detalhe da história municipal. Ele evidencia como projetos autoritários podem se instalar com rapidez em democracias recém-nascidas — especialmente quando encontram instabilidade institucional, insegurança política e apelos emocionais bem construídos.
O fascismo, historicamente, significou supressão de liberdades, concentração de poder e enfraquecimento das instituições representativas. Não é apenas uma posição ideológica diferente: é uma proposta de reorganização do Estado incompatível com o pluralismo democrático.
A Palma de 1937 funciona como um microcosmo do Brasil daquele período:
uma democracia breve, seguida por um autoritarismo prolongado, e uma memória que precisa ser tratada com responsabilidade e honestidade histórica.
Recordar isso não é revanchismo.
É exercício de consciência cívica.
Porque democracias frágeis exigem memória forte — e memória forte exige coragem para compreender o passado sem distorções.
Assim, é preciso conhecer a história para não cometermos os mesmos erros do passado. O Fascismo deve ser repudiado por toda a sociedade.
No livro do ilustres "Palmo Coreauenses", Francisco Mavignier Cavalcante França, Marcondes Cavalcante França e Mardone Cavalcante França, intitulado "100 anos de registros jornalísticos de Coreaú Ceará 1858-1958", informações pertinentes dessa visita dos integralistas a "velha" Palma são trazidas, informações essas obtidas no Jornal A Razão, 15 de agosto de 1937, retiradas na Biblioteca Nacional, senão vejamos:
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Tribunal Regional Eleitoral do Ceará – TRE-CE. Primeiras eleições e acervo documental do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará. Fortaleza: TRE-CE, 2007. Disponível em:https://apps.tre-ce.jus.br/tre/consultas/publicacoes/doc-publicacao.php?doc=2007%7Cprimeiras-eleicoes-e-acervo-documental%7Carquivo%7CPrimeiras_Eleicoes_e_Acervo_Documental.pdf. Acesso em: 16 fev. 2026.
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